domingo, 24 de março de 2013


LAVOURA GONÇALO

No meio da praça
Da minha cidade
Um homem vontade
Cigarro e chapéu

No meio da praça
Com chuva e com frio
Um homem arredio
Vislumbra o céu

As suas mãos campos, construções,
No seu olhar, progresso, aluviões
De terras, rebocos, enxurradas. 

Marca o relógio
O tempo que passa 

No meio do mundo
Do meio da praça
Vontade e chapéu
E cigarro, enlaça
Buscando o porvir.

Ao longe o sino da igreja triste.
- a fonte luminosa ainda existe?
- na memória a colorir. 

Pergunto a chuva
Ao vento que passa
Quem e este homem?
Futuro e chapéu,
Lavoura Gonçalo,
É tua cidade
Com chuva e com frio
No meio da praça.

JOGO E POESIA


Irene despertou para o mundo como uma mulher
Loura e bonita
Eu menino triste e pensativo contando estrelas.
Irene casou-se, engordou e teve muitos filhos,
Eu enlacei-me a solidão e multipliquei pensamentos
Irene desgostosa com o marido que bebia começou
A jogar,
Eu triste com o mundo em que vivo comecei
A escrever
Irene acreditava na sorte.
Eu acreditava na vida.
Todos os dias ela passa horas a fio escrevendo
Jogos
Todos os dias passo hora  a fio escrevendo
Versos
Ela fica aborrecida se não joga
O dia e branco se não escrevo
Não ha sentido para Irene se não houver o jogo
Sinto-me inútil se não houver poesia
Se o jogo não for ganho
E a poesia não for lida
Irene e eu estaremos sem sentidos
Pois eu poeto o jogo
E Irene joga a poesia.
Irene e eu estamos de frente para o vicio,
Tentando dar sentido a tudo com estes elementos
Jogo a poesia


INTERLÚDIO


Pôr alguns momentos repouso meus olhos 
No papel branco 
E minha mão desliza para registrar este 
Momento 
Aparentemente estático 
Tenho as pernas cansadas e o coração triste
Tenho os olhos úmidos e a vontade de
Chorar um rio. 
Tenho 45 anos, mas parece que vivi a 
Idade da pedra 
Tal como um bólide me inflamo
 Sentindo 
Que desaparecerei na atmosfera

Tenho pressa, não sei o que me empurra 
Para frente, para o alto.

Sei que todo eu sou uma grande
 inquietação 
Um pranto.

Um grito sufocado
Um tapa no escuro 
Uma defesa

Uma musica que nunca foi tocada 
Esquecida na pauta 
Uma garoa, chuva, uma torrente d' água 
Caindo a terra. 
Um vulcão que não se cansa de vomitar 
Larva 
Um choro de criança, um grito de mulher 
Parida, 
Uma ave tentando alçar o vôo,
Umas mãos postas em prece
Uns grandes olhos atentos,
Tentando 
Descobrir Deus.


Há um rio de palavras em  minha terra que se transformam em poesia.
                                                        O Potengi é Rio e poesia.
                            Brancas velas
                            Verdes cocos
                            Brisas Fortes
O que não queima no lajedo lapida as almas das palavras.
                            Gás do candeeiro
                            Marrafa e vovó
                            Lida e cangaceiro
O que não mata engorda e torna-se poesia.
                            Cabra da peste
                            Casa de taipa
                            Luz que alumia
E jogo de apoito, quem quiser que pegue a poesia
                            Confeito
                            Chegança
                            Caninga
                            Zabumba
                            Sebito
                            Bufete
Vixe! Roubaram-me tanto que quase levam o meu sotaque
                            Titia
                            Sendeiro
                            vexado
                           
Mastigo, engulo e bebo de uma lapada só o verbo das ruas.
                            Canguleiros
                            Caatingas
                            Retirantes
Pra não causar vuco-vuco, lamber os beiços e  adoçar o verso:
                            Roletes de cana
                            Pirão com mangaba
                            Beber cajuína
Na Ribeira a poesia se derrama e vai desaguar nas docas
                            Rocas da minha infância
                            Poço do Dentão
                            Feijão verde e mungunzá
                            Roda de côco e quengas
                            A cantar e dançar
A alça do califon da menina deixa entrever os seios de pitombas
                            Que embriaga sem ser cachaça
                            Que tonteio sem rodar
                            Liso, lerdo, leso.
Há um rio de palavras que desembocam no mar da  poesia
O luar de Pirangy  tece filigranas de pratas  com suas espumas ao  olhar
Doira o poente de Areia Branca com reflexos no imenso mar.
Eu, reposteiro guardo este tesouro no matulão.
Mãos de rendeiras e dedal.
Há um rio de nomes na cultura em que aprendi a soletrar
                            Câmara Cascudo
                            Auta de Souza
                            Ferreira Itajubá
                            Diógenes
                            Enélio
                            Dorian
“A tecer ouro fino, Ó to lindo. Para no mar navegar.”

                           
Há um rio de palavras e nomes e lembranças que desembocam no mar de minh`alma e me faz versar
                   A antiga rua do Areal
                   Rio grande do Norte - Natal

                           

                                               

FREDERICO



Frederico,
Hum!
Frederico…
Era um amigo meu que por falta de destreza,
Perdeu-se no mundo. No abismo da beleza
Que contem toda alma boa, pura…
Frederico sorria das dores, zombava das desgraças
Não existia o mal. Para ele as borrascas,
Eram estímulos à sua amargura…
Frederico,
Hum!
Frederico…
Pálido cândido ao extremo, otimista.
Pensava que os rubis, diamantes, ametistas,
Se encontravam em qualquer pedreira.
A todas conquistava e o cultivo do belo,
Fora o seu maior empenho. Este anelo
Levou Frederico a desgraceira.
Mas…
Apesar disto…
Eu gostava de Frederico…
Frederico
Coitado!
Frederico…
Certa vez encontrei, era tarde noite quente,
Ele andara 3 léguas – Frederico! Já lhe digo,
Repliquei aborrecido, deste presente
O teu último vintém ao primeiro mendigo!…
Frederico sorriu,
Encabulado.
Frederico…
Pobre Frederico!
Calças largas, camisas mal passadas,
Seu estômago, coitado em certa madrugada,
Não sentia o peso do café.
Todos desfrutavam suas venturas.
Aos amigos: livros, dinheiro, pinturas
Ao vizinho: o sapato grande do seu pé.
Frederico,
Pobre Frederico…
Pronto!
Agora
Tudo acabou.
Frederico morreu. Desconheço quais obreiros

O carregam. Apenas sei, quatro coveiros

Que herdaram velhas calças, camisas, sapatos.
E agora Frederico? – os sorrisos comprados
Noite de frio, dias de sofrimentos, mal grados
Em prol de amigos e parentes ingratos?
Eu, que de passeio
A sua campa
Sempre digo:
Frederico! Frederico!
Olha!
Uma coisa vou te confessar:
Não! Não!
Nem penses em elogios
Nem dizer que fostes santo,
Ou de sentimentos ricos!…
E que o homem, camarada,
Nasce bobo e por nada
Quer amigo.
Somos tolos…
Somos tolos…
Teu retrato
Frederico!   


 


EU

Eu sou o vento
Que passa furtivo
Pelos teus cabelos...

Eu sou orvalho
Que umedece teus lábios
Na manha serena...

Eu sou a noite
Que penetra, infinitamente,
Em teus olhos...

Eu sou o eterno
Que se introduz nos poros
Do teu sublime corpo...

Mas,
Sobretudo
Eu sou o vácuo
Que se infiltra pela janela
Do teu pobre coração



EM PLENO DIA DE SOL

Em pleno dia de sol
                   E céu azul
Acertaram-me uma pedra
Que não pegou no braço
Que não pegou na perna
Que não pegou no ombro
Que não pegou na nuca
Que não pegou na mão
Em pleno dia de amor
                   Azul
Acertara-me uma pedra
Que me atingiu a cabeça
Merda!
Acertara-me uma pedra
                   Na cabeça
Que misturou todos
                   Os meus sentidos

07/06/1980
restaurante nogueira

EM NOITE DE LUA

Em noite de lua
Não vale a tristeza
Por mais que a crueza
Da vida que é tua
Te fira. E a vileza
Invada a rua
Por mais que a beleza
A dor não atenua
Não vale a tristeza
Calar a alma tua
Não vale a tristeza
Em noite de lua

26/05/1981

Dois pescadores dormiram sobre a jangada
Aportada nas areias da praia de Pirangi.
Ainda não raiara o dia quando se lançaram
                                                                           Ao mar,
Fiquei a observá-los. E no computador lia
                                                                           As últimas notícias.
“O presidente Bush não sabe que no Brasil há negros”
“Maluf desmente conta na suíça. Embora confirme
                                                                           Sua assinatura.”
“Aumenta o número do trabalho escravo no mundo”
Raiara o dia e o sol provocava luz e sombra no mar.
Corri a praia para vê-los chegar, com seus bonés brancos
                                                                           E camisas vermelhas.
Faziam movimentos de linhas entrelaçadas, arabescos, círculos, rabiscos, belos de pintar.
Jogaram os peixes na areia e dividiram entre eles e outros
                                                                           Necessitados.
As espumas das águas vinham lhes tocar.
Tive pena de mim por ter um computador e não saber
                                                                           Jangadear.
E nunca ter dividido peixes. E, sob a luz do sol
Ser, apenas uma garatuja.
E chorar... E chorar quando os americanos bombardeiam
                                                                           Sem piedade
Os céus da cidade de Faluja.







DAS UNIDADES

Só há uma fonte que sustenta o verde vale;
E apenas o vento do oeste sopram-lhe as flores.
Só há uma cor que predomina esta paisagem,
E o pássaro que canta, tem sempre um canto
Igual e triste...
Só há uma armadilha no intrínseco da floresta
Onde caem também as astutas raposas...
Só há um mar profundo onde se deitam os rios
E a jangada que o navega é única tendo o
O mesmo dono.
Só há um leiloeiro no complexo da cidade
E o resgate é sempre o mesmo de idêntico preço
Só há um lar que nos abriga e um telhado
Que nos observa
Para onde convergem tentas emoções
De um único dono
Só há um sepulcro onde descansar o corpo dos males
E um pedaço de céu a cobrir-lhe a consciência...



COPACABANA

Buenas noches, señor, donde hay habitaciones
Para turistas.
Há mi desespero ES no mirar La tonta luna nel cielo
De estanho.
Como mosaico ver minha própria dor estampada nos
Rostos dos passantes.
A serenidade perdida o eu desintegrado saído pelas cloacas
Escorrendo pelos esgotos, soprando pelos canos de descargas,
Pelos espirros, pelos suspiros pelo suor da praia misturado
Ao óleo de côco.
Ao riso fugidio, a palavra falsa, ao olhar desdenhoso, ao cheiro
Do perfume importado.
Há meu desespero e de está enclausurado em dois compartimentos,
Com gente por cima e por baixo.
Estranha simbiose de corpos e almas e carismas e fezes.
Estranha maneira de viver como presos dentro de uma liberdade
Incomensurável.
Lamento a beleza acimentada, calçada, vestida de gala com fraque
E cartola e gravata e smoking.
Lamento a beleza enquadrada em esquemas turísticos com farofa
E galinha.
Lamento a música do mar obscurecida pelos motores e prantos
E gemidos.
Arre! Meu desespero é observar o homem fardado tomando conta
Da orla da praia.
Cobrando impostos, da brisa do mar, da ultima brisa que passa
Mascarando a lua.
E dos americanos, argentinos e todos os anos e inos defecando
Beautifuls.
E da merda pisada em plena calçada anexa ao jovem embriagado
De éter.
O que vi, não foi o sonhado. O que cri não foi o realizado
E a brisa e o mar devolveu as areias humanos sargaços
Cansado de saber-te, simples bagaço resta-me deixar-te
Copacabana.
Para que possa volver a mirar a cara de La luna



CHAVE SEM PORTA


Não tenho nada com isto,
Tudo o que quero é cantar,
Sucesso é estar bem comigo,
Sem sofrer e sem chorar.
Dinheiro? Sim eu preciso,
Só pra comer e gastar
O mínimo de consumismo
Não vale a pena esbanjar.


Não tenho nada com isto
Tudo o que quero é cantar


Você nem telefonou
Pra dizer que o sol nasceu
Que tudo e tão igual
Menos a flor que morreu
E pouco tudo importa
Afora o sol e o mar,
E o teu amor sem demora,
E uma chave sem porta


Não tenho nada com isto,
Tudo o que quero e cantar.


A FILHA DO CASEIRO


Ontem a filha do caseiro completava
O seu cotidiano;
A enxada na mão, pézinhos no chão, no peito
Uma grande vontade de ser uma criança normal,
Travessuras e bonecas;
Mas ali estava com suas mãos calosas e cabelos
Desgrenhados,
Com suas roupas rotas e o estômago vazio.
Uma fresta de escuridão na luz do mundo
Uma erva daninha que não nos envergonhávamos
De cultivar
Um espantalho fincado no jardim da humanidade.
Ontem a filha do caseiro completava
Seu cotidiano
Frente a ela duas meninas falavam de jóias e livros
E o perfil das três estarreceu-me como uma
Porrada na cara
Sentido que já haviam aprendido a diferença do ouro
E do pão,
Do campo e da cidade, da bonança e da miserabilidade
Ensinamos olhares superiores conforme nossas contas
Bancarias
Ensinamos um sorriso cínico para diferenciar
A enxada e o livro
E as três meninas da mesma idade, separadas pelo
Condicionamento.
Ontem a filha do caseiro completava
O seu cotidiano
Com uma feriada na perna e com os olhos brilhando
Como os pontos cardeais
Com uma chaga no peito e o sorriso de uma aurora
Boreal
Com os pés no chão e o coração no céu, em uma
Prece constante
Tentando ser uma criança normal
Ontem a filha do caseiro completava
O seu cotidiano
E tornou-me mais humano, meu verso triste, minha
Concepção mais natural.
Ontem não precisava ter tido um sol tão forte
De uma lua tão clara, de um céu tão limpo
Quaisquer navegantes identificariam os pontos
Cardeais.


A NAVE DA EDUCAÇÃO

Everaldo Botelho Bezerra

A Educação é uma nave célere, desgovernada, sem ter um
ponto de partida ou de chegada, prestes a se  estilhaçar.
Aos professores

Estamos em pleno ar, doidas no espaço
Brincam no ar as naves, borboletas,
As madressilvas, os lilases, crescem
Entre o fumo e o pó, as violetas.

Estamos em pleno ar, a luta eterna
Entre o bem e o mal, inda é contínua,
A natureza chora os seus reveses,
Na gota do orvalho, cristalina.

Mas o que vejo nesta nave célere
A porta do século que finda?
Ainda os negros recebendo açoites,
Dores e preconceitos, ainda?

Ontem os coronéis, chibata, couro,
Hoje o Estado. Colarinho d` ouro
E os pulhas a escravizar.
Legiões de crianças, no carvão imundo,
Dormindo em jornais, como os calungos,
Forçados a trabalhar.

Pelas ruas e praças, pelos bares
Trafegam sujas a fugir dos lares
Das escolas a se evadir
E a roubar e matar sem esperança
(Sonhos que lhe roubaram da infância)
E choram sem porvir.

Cheirando cola no porão profundo,
Comendo o lixo atômico do mundo,
E o empresário a gargalhar.
Que nas vagas do luxo, mais dinheiro
Na sombra, no desfalque por inteiro
Juntar, guardar, juntar.

Senhor Deus dos ultrajados,
Dos pobres e dos humilhados,
Até quando esta cruz?
Tu que mudas o inverno e a primavera
Dá-nos força pra criar uma nova era,
Dá-nos uma réstia de Luz.


Oh! nuvens de brancas espumas
Por que não escondes nas brumas
Um século de escravidão?
E abre as portas ao milênio novo
Possibilitando a todo um povo
Um lar e a educação.

A Europa - Mulher de pele clara,
Seios nus a exibir a jóia rara,
Hugo, Zola, Rodin.
Vai cavalgando em corcéis dourados
Em sua trilha seguem, perfumados,
Verlaine, Wilde, Rembrandt.

Mas eu, Senhor, que venho do deserto,
Onde miséria e morte rondam perto
Nordeste , Etiópia - a esmolar.
Reclamo esta grande iniqüidade
E aos céus peço justiça, igualdade,
Comer, vestir, um lar.

Colibri que revoa no outeiro
Bebe o mel que sustenta os teus ais.
Voa livre - o belga canário
Entoando os seus madrigais.

Estamos em pleno ar, o firmamento
Tem a cor do chumbo, virulento,
Fábrica, queimada a crepitar.

Onde a flor de um jardim espia o astro
Brota da pétala, gota de alabastro,
Querendo respirar.

Castro- vem rever este caminho!
Já não é só o negro, o pelourinho
Com chibatas a trabalhar.
Professores em ônibus apinhados,
Com salários de fome, imprensados,
Sonhando educar.

Andando mudos, tendo o sol a pino
Nas boléias, nas canoas - o peregrino
A suar...a suar..    


Pôr que segues veloz. Oh! Nave errante?
Espera um pouco - o poeta.
Não leveis a turba destroçada
Bater as portas do futuro, inquieta.
Homens do campo, rotos lavradores,
Que nas mãos trazem o mapa dos horrores,
Na face a palidez.
Velhas mulheres percorrendo a estrada
Enroladas em bandeiras- como Andrada.
Fogem da sordidez.

Senhor Deus dos ultrajados,
Dos pobres e dos humilhados,
Até quando esta cruz.?
Tu que mudas o inverno e a primavera
Dá-nos força pra criar uma nova era
Dá-nos uma réstia de luz.

Anda a lua no infinito prateado
Que destino reservam-lhe os céus?
Voa, Voa . Oh! nave errante,
Implorando as bênçãos de Deus.

Euclides- Dá-me a fé inquebrantável,
Um livro e um pedaço de giz.
Cruz de Prata que no céu vagueia
Brilhai neste País.


A LENDA DE SÃO GONÇALO         
para Luiz Lázaro Melo Bezerra


Conta a lenda que um poeta 
Quis conquistar sua amada
Mas foi difícil a empreitada
Sem a inspiração esteta
Foi na igreja rezar.
Levava nas mão avenas
Lírios brancos perfumados
Jasmins, rosário encantado
Pra São Gonçalo ofertar.

Qual não foi o seu espanto
Ao olhar na Santa igreja
Quis ofertar sua prenda
E não viu no altar o santo
E ali não pode rezar
E começou sua empreitada
Navegou por altos mares
Ouviu Cantos de Sereias
Em noites de luas cheias
Não conseguindo o encontrar
Andou em terra distante
Na verdade, estrangeira
Em Portugal, Amarante
Onde o Santo ali permeia
E foi com ele instar.
Conta a lenda que o poeta
Falou da necessidade
Do retorno imediato 
Do Santo. Para a cidade
Sua imagem retornar.

Minha cidade esquecida
Dizia o Santo. Lamento,
Haverá grandes mudanças
Se não for grande o intento.
E o amor não for maior.

Haverá pouca cultura
E a educação será pobre
E as ruas tão maltratadas
Será berço ou sepultura
Devido a pouca cultura

Homens bons se matarão
Esquecerão tempos idos
E os exemplos dos bandidos
Muitos deles seguirão.
Não haverá flores ou praças
E o direito de ir e vir
Nem mesmo o sino da igreja
Vocês ouvirão tinir
Adeus altar, campanário,
Nascerão apenas traças,
E no Zimbório as graças
Nenhum santo há de ouvir.
Crianças se corrompendo
A juventude esquecida
A sociedade perdida
A natureza sofrendo
E a política ganhando.
Conta a lenda que o poeta
Em Amarante, chorando,
Depositou lírio branco,
E rezou tantas novenas
Olhou suas mão pequenas
E o que podia fazer?
Retornou os mesmos mares
Pediu as ninfas as náiades
No azul do céu, às Plêiades
E ao rouxinol o seu canto
Para o retorno do Santo
A sua paróquia ao altar.
Ao Retornar tudo embalde
Nem Santo nem romaria
Nem mirra e nem alegria
Nem sombra pra descansar
Era verdade que o Santo
Abandonara o altar.
Convocou a sociedade
Os estudantes, noviços
Crianças e os anciões
Os homens sérios na praça
Juristas e instituições
Trabalhadores sofridos
Educadores descrentes
As famílias e parentes
E fez grandes convenções
Pra São Gonçalo crescer.

Vereadores honestos
Percorriam esquinas bares                                                                                                    
Levavam palavras aos lares
Todos tinham que ajudar
Crescer. A ordem é crescer.

Em mutirão sem igual
Em prol do bem do direito
Foram falar com o prefeito
O perigo que corria 
E o porque ele for a eleito.

Jamais se vil tal trabalho
E todo mundo ajudando
Nas ruas praças, plantando,
Arvores, flores, a granel.
A saúde melhorada
A educação reformada
Era a luz na escuridão.
Que o infinito azulado
Vendo a cidade enfeitada
Refletia o céu no chão.

Conta a lenda que o poeta
Já com  mãos envelhecidas
Enfeitava as ermidas
Com flores, mirras, romãs
E o branco do alabastro
Ia buscar lá do astro
A luz de todas manhãs.

Um dia era o levante
Com suas rugas, o poeta
Suas mão tremulas, seus ais
Foi acender suas velas
Na prata dos castiçais
Quando viu uma luz mais bela

São Gonçalo de Amarante
Entre púrpuras ametistas
Resplendia a luz da estrela
Mais bela. Que sua vista
Quase não pode aguentar.

 Podes fazer teu poema
Que hoje é nova era.
Dizia o santo. Lanternas
Teu caminho há de o guiar.
 Mas, senhor a minha idade
Há muito já não me espera

Sobram-me  rugas no rosto
Mãos calosas, desgrenhadas,
É inverno, e o sol posto,
Anuncia derrocadas.
Resta a flor dos pessegueiros
Além da beira da estrada.

Conta a lenda que o santo
Envolveu-o em crisólitos
Com luzeiros transparentes
Selenitos colossais
Conta a lenda que o poeta
Em toda a sua plenitude
Transparente em juventude
Não envelheceu jamais.










A FOLHA


                 
A folha
Caída
No vento
Sem deus
Sem mim
Exclama
Reclama
O todo
O nada
O fim

Na lida
Da vida
A folha
Caída
Tombou
Em mim
Exclamo
Reclamo
O todo
O nada
O fim.

O vento
No alento
Me leva
No acaso
Sem deus
Sem mim.

Na lida
Da vida
Encontro
O todo
O nada
O fim
Em mim.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ESTRELA RADIANTE



No céu uma estrela
Mais nova irradia.

E quem puder vê-la
Jamais na agonia

Irá esquecê-la,
Será sua guia.

Tão pura e tão bela
Derrama alegria

Por sobre a mazela
Tem luz que alumia

A tua janela
Tão grande vigia.

Escura ruela
De grande valia

Estrela, aquela,
Desperta, vigia,
Em tua janela

No céu uma estrela
Mais nova irradia.

PORTO - JANGADA


 Aos poucos o espírito foi-se

                            afinando, -
Com o roer dos dias na moenda.
Perdi o fio antigo – A ilusão primeira –
Daí perdi todas as ilusões; resta
                            a derradeira –
-         O Silêncio –
Porque tive de ser tudo menos o previsto?
Estar em todas as partes e ausente de mim?
Deploro o destino que escreveu-me n’alma,
Ou foi min’alma que não seguiu o destino?
- Talvez não exista destino e nem alma;
para que toda a culpa e sofrer pertença
                            ao corpo
Ao corpo e a consciência.
Fui tudo o que eles quiseram que eu fosse,
Menos o que sempre quis ter sido;
Vendi água de poço
Fui padeiro
Carreguei leite engradado
Ajudante de pedreiro
Vendi balas e doces,
Belas falsas
                   belas falsas,
Na estrada do nordeste
Quando passam os caminhões
Apinhados
                            empoeirado
De nordestinos ao Rio.
Há…
Já fui tantas coisas para os outros
Que talvez tenha esquecido o que
                            realmente queria
Basta de ser Porto.
Quero ser Jangada
E sair por aí ao sabor
Dos ventos e das ondas
Bater em praias desertas
Em ilhas nunca encontradas,
Soçobrar em mar bravio
Apodrecer nos recifes
Ou reclusos em crateras
Por ninguém inda exploradas.
Basta ser Porto,
                            quero ser Jangada
Eu que nunca acreditei muito
                            em min mesmo
Mas sempre religiando os sonhos
                            que não me pertenciam.
Eu que nunca atirei pedras
                            aos santos
Pagando, entretando, por estes pecados,
Desculpando o vulgar que havia
                            nos outros
Reprovando o incomun que diabólicamente
                            em mim nascia.
Aos diabos…
         aos diabos a consciência,
Que nunca provou de Deus,
Aos inferno…
         aos infernos Deus,
Que nunca provou da consciência.
Aos poucos o espírito foi-se afinando
De monarquia à república,
Da prisão total à uma liberdade
                            Incomensurável,
Sufocando têmporas e olhos
E nariz e garganta
De expectador à artista
                            nesta falsa peça do viver.
De relhador à cavalo
                            à liberdade
                                               à república.
Mas basta!…
Basta de ser Porto.
Quero ser Jangada ao Mar… ao Mar… ao Mar…
                    

O RIO DE PALAVRAS


Há um rio de palavras em  minha terra que se transformam em poesia.
                                                        O Potengi é Rio e poesia.
                            Brancas velas
                            Verdes cocos
                            Brisas Fortes
O que não queima no lajedo lapida as almas das palavras.
                            Gás do candeeiro
                            Marrafa e vovó
                            Lida e cangaceiro
O que não mata engorda e torna-se poesia.
                            Cabra da peste
                            Casa de taipa
                            Luz que alumia
E jogo de apoito, quem quiser que pegue a poesia
                            Confeito
                            Chegança
                            Caninga
                            Zabumba
                            Sebito
                            Bufete
Vixe! Roubaram-me tanto que quase levam o meu sotaque
                            Titia
                            Sendeiro
                            vexado
                           
Mastigo, engulo e bebo de uma lapada só o verbo das ruas.
                            Canguleiros
                            Caatingas
                            Retirantes
Pra não causar vuco-vuco, lamber os beiços e  adoçar o verso:
                            Roletes de cana
                            Pirão com mangaba
                            Beber cajuína
Na Ribeira a poesia se derrama e vai desaguar nas docas
                            Rocas da minha infância
                            Poço do Dentão
                            Feijão verde e mungunzá
                            Roda de côco e quengas
                            A cantar e dançar
A alça do califon da menina deixa entrever os seios de pitombas
                            Que embriaga sem ser cachaça
                            Que tonteio sem rodar
                            Liso, lerdo, leso.
Há um rio de palavras que desembocam no mar da  poesia
O luar de Pirangy  tece filigranas de pratas  com suas espumas ao  olhar
Doira o poente de Areia Branca com reflexos no imenso mar.
Eu, reposteiro guardo este tesouro no matulão.
Mãos de rendeiras e dedal.
Há um rio de nomes na cultura em que aprendi a soletrar
                            Câmara Cascudo
                            Auta de Souza
                            Ferreira Itajubá
                            Diógenes
                            Enélio
                            Dorian
“A tecer ouro fino, Ó to lindo. Para no mar navegar.”

                           
Há um rio de palavras e nomes e lembranças que desembocam no mar de minh`alma e me faz versar
                   A antiga rua do Areal
                   Rio grande do Norte - Natal